Aos 85 anos, Jocy de Oliveira tem reeditado em LP o álbum de samba punk que lançou em 1959









Disco é pioneiro por ter tocado em temas pesados como suicídio, crime e solidão no clima suave da bossa nova. ? Alguns anos antes da cisão que rachou a bossa nova, quando compositores como Carlos Lyra fizeram movimento ativista rumo a uma música de letras mais engajadas e fiéis à realidade social do povo brasileiro, Jocy de Oliveira apontou nuvens no céu ensolarado da bossa. O clima pesou com o álbum vanguardista A música século XX de Jocy, lançado pela gravadora Copacabana em 1959 e luxuosamente reeditado no formato original de LP neste ano de 2021 pelo selo paulistano Discos Nada em parceria com a Litoral Records (selo responsável pela reedição do disco no mercado alemão). No mesmo ano em que João Gilberto (1931 – 2019) lançou o primeiro álbum da trilogia fundamental da bossa nova, Chega de saudade (1959), a cantora, compositora e pianista paranaense Jocy de Oliveira – nascida em abril de 1936 e atualmente com 85 anos – apareceu com álbum em que, seguindo com suavidade a cadência do samba, tocou em temas pesados como suicídio, incêndio no morro, crime e solidão, mostrando as dissonâncias da vida real. A aura era de bossa nova, mas o tom punk das letras do “samba policial” – rótulo impresso na contracapa do LP para identificar músicas como Sofia suicidou-se, Um assalto no Morumbi e Um crime (faixa de tom teatral) – deu ao álbum A música século XX de Jocy um caráter experimental que faz o álbum soar original ainda em 2021. Capa do álbum A música século XX de Jocy, de Jocy de Oliveira Divulgação Então já casada com o maestro cearense Eleazar de Carvalho (1912 – 1996), responsável pelas orquestrações e regências do álbum, Jocy de Oliveira tinha apenas 23 anos quando a gravadora Copacabana lançou o LP no mercado fonográfico sem dar a devida atenção ao disco, alçado ao status de cult com o passar dos anos. Na época, Jocy de Oliveira já tinha feito nome no universo da música erudita, sendo pianista reconhecida, com atuação como solista na Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e com concertos apresentados na Europa e nos Estados Unidos, como enfatiza o texto escrito pelo poeta modernista Menotti Del Picchia (1892 – 1988) para a contracapa do LP. Gravado entre 1958 e 1959, o álbum A música século XX de Jocy foi a única incursão da artista multimídia na área da música popular. O disco se revelou inovador não somente pelas harmonizações dos sambas e pela temática das letras críticas de composições como A morte do violão, Brasília século XX, Frida – samba antecedido pelo poema homônimo em que Jocy descreve o temperamento solitário e depressivo da personagem-título – e Pecou a Rosa, mas também pelo caráter inteiramente autoral do repertório. Em 1959, somente uma cantora e compositora, Maysa (1936 – 1977), tinha conseguido a proeza de gravar disco inteiramente autoral, Convite para ouvir Maysa, lançado em 1956 pela RGE. Jocy de Oliveira surfou nessa primeira onda autoral feminista, mas em outra praia. “O mar queria afogar o violão / Apagar o luar”, descreve a artista nos versos de O sorriso da praia, samba que sintetiza a antítese da bossa nova que pautou em 1959 “a música século XX” de Jocy de Oliveira.